Lei da Califórnia sobre shoplifting cria polêmica nos EUA

A Califórnia, nos EUA, teve boa intenção, quando aprovou, recentemente, uma lei que rebaixou o shoplifting (furto de mercadorias em lojas) da classificação de crime para a de contravenção penal. Shoplifting passou a ser um delito de pequena monta. Um problema é o de que a “monta” não é pequena. Seu limite máximo é de US$ 950 (R$ 5.357) — um valor que permite a um ladrão furtar não uma ou duas galinhas para comer, mas cerca de 250. E vendê-las pela Internet.

A boa intenção era remediar crises como as da sobrecarga da Justiça, a excessiva população prisional e as pressões sobre o orçamento do estado. Mas o efeito colateral do remédio foi considerável: ele criou um incentivo para o shoplifting, que, na verdade, se traduziu em saques de lojas por gangues, que alarmaram São Francisco e outras cidades do estado.

Tais saques foram definidos como ações do crime organizado pela National Retail Federation (NRF). Não podem ser classificados como shoplifting, que é a ação normalmente isolada de um indivíduo, que tenta subtrair furtivamente mercadoria de uma loja. As gangues têm agido abertamente, sem tentar ao menos disfarçar suas ações.

A lei recebeu muitos elogios e muitas críticas, na comunidade jurídica e nas entidades representativas dos varejistas e dos próprios comerciantes. Mais críticas, por sinal. Há quem peça uma nova reversão da medida legislativa, para endurecer a lei e conter o incentivo ao crime.

Mas há quem ache que é preciso, para desestimular a prática, regulamentar a atuação das provedoras de Internet, porque o maior incentivo seria a facilidade para se vender os produtos furtados online. A lei deveria exigir que as provedoras colhessem alguns dados dos vendedores que movimentam um volume maior de mercadorias em sites tais como o Craigslist, para facilitar a identificação.

Outro problema é o de que a lei criou desincentivos para a polícia investigar e prender os infratores e para os promotores processá-los. A lei define shoplifting como o ato de entrar em um estabelecimento comercial, em horário comercial, com a intenção de cometer um delito. É certamente difícil para o promotor provar a intenção prévia do infrator.

Da mesma forma, há pouca vontade dos promotores de processar alguém por tal contravenção penal. Se o fizer — e tiver sucesso apesar de tudo — estará buscando uma pena de seis meses de cadeia e/ou multa máxima de US$ 1 mil. E a polícia não pode ajudar muito nas investigações e na obtenção de provas, a não ser que a pessoa confesse. Então prefere “deixar isso pra lá”.

Teoricamente, esse foi mais um incentivo às gangues para saquear lojas em São Francisco e outras cidades da Califórnia. E as gangues encontraram mais uma facilidade: os empregados das lojas foram instruídos a não resistir à ação das gangues por uma questão de segurança pessoal, depois que um empregado da Rite Aid foi morto, ao tentar impedir a ação de dois ladrões. E as lojas não se dispõem a gastar mais do que já gastam com segurança. Preferem fechar as portas. E a comunidade perde serviços e empregos.

Buraco mais embaixo

A nova lei da Califórnia pode ter incentivado o shoplifting, como ocorreu em outros estados que relaxaram, de alguma forma, a classificação penal do delito. Mas não é, de forma alguma, responsável pela praga de furtos de mercadorias de lojas que infesta os Estados Unidos há anos.

A National Association for Shoplifting Prevention calcula que o furto de mercadorias em lojas tem um custo para os varejistas, nos EUA, de cerca de US$ 45 bilhões por ano — dos quais US$ 33,21 bilhões são repassados aos contribuintes.

Relatório da National Retail Federation (NFR) de 2020, que se concentra no custo do crime organizado, indica que os varejistas arcaram, no ano, com uma perda média de US$ 719.548 por US$ 1 bilhão em vendas, em comparação com US$ 703.320 em 2019 e com US$ 453.900 em 2015 – isto é, vem crescendo consistentemente nos últimos anos.

O crime está em alta na Califórnia (e nos EUA, em geral), de qualquer forma. O número de homicídios aumentou 31% no ano passado, tornando 2020 o ano “mais letal” desde 2007, segundo a Hoover Institution. Em 2020, ocorreram 2.202 homicídios, 523 a mais do que em 2019. Homicídios em Los Angeles subiram 40% e em São Francisco 35%.

A situação pode piorar, porque o governo da Califórnia planeja libertar 63 mil prisioneiros, da população carcerária de 115 mil — para aliviar o orçamento. O custo de cada prisioneiro para o estado é de US$ 81 mil ano — multiplicado por 115 mil prisioneiros é igual a US$ 9,315 bilhões por ano.

Os defensores do “downgrade” do shoplifting para contravenção penal acham que a polícia e os promotores irão aproveitar melhor seus recursos se concentrarem seus esforços no combate a “crimes de maior impacto”, como homicídio, assalto, abuso infantil, fraudes tributárias, distribuidores do mercado negro, etc. E apenas criar desincentivos apropriados ao cometimento de delitos de menor potencial ofensivo.

Revista Consultor Jurídico, 29 de dezembro de 2021.

Publicado por Factótum Cultural

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