Buck Breaking: quando a violência sexual vira instrumento de poder

Não é sobre sexo. É sobre dominação.
Ao longo da história, o poder aprendeu que controlar corpos é eficaz — mas quebrar pessoas por dentro é ainda mais.

Buck breaking é o nome dado a uma prática extrema associada à escravidão, principalmente no contexto anglo-americano: o uso da violência sexual contra homens negros escravizados como forma de punição, humilhação e intimidação coletiva.

Um tema pesado, pouco falado e frequentemente distorcido. Por isso, vale separar história, realidade atual e mitos contemporâneos.


O que significa “buck”

No vocabulário da época, buck era o homem negro visto como forte, resistente, trabalhador duro, às vezes líder informal entre os outros escravizados. Justamente por isso, era considerado perigoso.

Quebrar o buck não significava apenas castigá-lo fisicamente. Significava destruir seu papel simbólico, sua autoestima e sua capacidade de inspirar outros.

Era uma mensagem clara:
se até ele pode ser quebrado, ninguém está seguro.


Como isso acontecia na escravidão

Relatos históricos — de ex-escravizados, abolicionistas e registros indiretos — mostram que homens considerados rebeldes, orgulhosos ou fortes demais podiam ser submetidos a punições exemplares.

Além do chicote, da fome e do tronco, a violência sexual era usada como arma psicológica. Muitas vezes, o mais importante não era o ato em si, mas o fato de que todos ficassem sabendo.

O trauma de um virava o medo de muitos.

O estupro, nesse contexto, funcionava como linguagem de poder. Não precisava ser explicado. O corpo violentado falava por si.


Por que isso era tão eficaz

Porque o sistema escravista entendia algo cruelmente simples:
a dor física passa; a vergonha permanece.

Depois de uma violência dessas, o homem continuava vivo, mas socialmente quebrado. Laços se rompiam, lideranças desapareciam, resistências se silenciavam.

Não era um desvio ocasional.
Era parte da lógica de controle.


Isso ficou no passado?

Da mesma forma, não.
A lógica, infelizmente, não morreu.

Hoje não existe um sistema legal que permita isso como punição oficial. Mas a ideia de usar violência sexual para humilhar, controlar e destruir ainda aparece em vários contextos.


Onde essa lógica aparece hoje

🔒 Prisões

Em prisões de diversos países, a violência sexual é usada como:

  • punição informal,
  • forma de hierarquia,
  • mecanismo de intimidação.

Muitas vezes, acontece com a conivência do silêncio institucional. O recado continua o mesmo:
quem manda decide o que acontece com o seu corpo.


⚔️ Guerras e conflitos armados

Em conflitos modernos, o estupro de homens ainda é usado para:

  • humilhar grupos inimigos,
  • destruir identidades,
  • quebrar moral coletiva.

O corpo vira campo de batalha simbólica.
Não é violência aleatória — é estratégia.


🕳️ Grupos armados e regimes autoritários

Milícias, facções e regimes autoritários utilizam a violência sexual como castigo, “correção” ou exemplo. Muda o cenário, mas a engrenagem é a mesma: dominar pelo trauma.


E a polêmica da calça abaixada: tem relação com buck breaking?

Essa é uma das associações mais comuns — e mais problemáticas.

Resposta direta:
👉 não há comprovação histórica de que o uso de calças abaixadas por jovens hoje seja herança direta do buck breaking.

Essa ideia circula principalmente em redes sociais, mas não encontra base sólida em documentos históricos, relatos consistentes ou estudos acadêmicos.


Então de onde vem esse estilo?

A origem mais aceita e documentada é outra:

🔒 Sistema prisional moderno

  • Em prisões, cintos são proibidos.
  • As roupas costumam ser padronizadas e maiores que o corpo.
  • Isso faz com que as calças fiquem caídas.

Quando presos saem, o estilo sai junto — não como submissão, mas como marca de sobrevivência.


🎵 Cultura de rua e hip-hop

Nos anos 80 e 90, esse visual foi incorporado pela cultura hip-hop e pelas ruas, tornando-se símbolo de:

  • identidade,
  • pertencimento,
  • desafio às normas.

Ou seja, o sentido foi ressignificado. Aquilo que nasceu da exclusão virou estética e linguagem própria.


Cuidado com o mito

Dizer que:

“calça abaixada é herança direta do buck breaking”

é perigoso porque:

  • simplifica uma prática cultural complexa;
  • retira agência dos próprios jovens;
  • transforma leitura simbólica em “fato histórico”.

Isso não fortalece o debate — enfraquece.


O ponto central

Buck breaking não é apenas um episódio do passado.
É o nome de uma lógica de poder.

Sempre que:

  • o corpo vira objeto,
  • o sexo vira arma,
  • a vergonha vira método,

estamos diante da mesma engrenagem, ainda que com outras formas e outros nomes.


Conclusão

A escravidão ensinou ao mundo técnicas de dominação que ainda ecoam. O buck breaking foi uma delas.

Falar sobre isso não é sensacionalismo.
É responsabilidade histórica.

Mas lembrar exige rigor.
Sem invenção, sem mito, sem atalhos fáceis.

Porque a violência já é suficientemente real.
E a verdade, sozinha, já pesa o bastante.

Neemias Moretti Prudente

⚖️ Advogado Criminalista.
📍 Mestre e Especialista em Direito Penal, Processo Penal e Criminologia
👥 Membro da Comissão da Advocacia Criminal e da Comissão de Apoio às Vítimas de Crimes da OAB/PR.

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Publicado por Factótum Cultural

Um amante do conhecimento, explorador inquieto e ousado, que compartilha ideias e expande consciências pelo vasto universo.