por Neemias Moretti Prudente

Em março de 2025, completam-se 31 anos desde o início do caso Escola Base, um dos episódios mais emblemáticos e trágicos da história jurídica e midiática brasileira. Este caso marcou profundamente a sociedade, sendo lembrado até hoje como exemplo de como a ausência de rigor investigativo, aliada à pressa da mídia em divulgar informações, pode destruir vidas de forma irreparável.
Como Tudo Começou
O caso teve início em março de 1994, quando pais de dois alunos da Escola Base, uma escola de educação infantil localizada no bairro da Aclimação, em São Paulo, notaram comportamentos que interpretaram como sinais de abuso sexual. As crianças eram pequenas e tinham dificuldade para se expressar, o que levou os pais a interpretar desenhos e gestos como possíveis indícios de abuso.
Um dos pais iniciou uma série de perguntas sugestivas às crianças, como:
- “Alguém te tocou de forma estranha?”
- “Eles fizeram algo errado com você?”
As respostas das crianças, típicas da imaginação infantil, foram interpretadas como confirmações. Esses relatos foram compartilhados com outros pais, gerando alarme coletivo. Logo, surgiram boatos de que os proprietários e professores levavam as crianças para festas em outras casas para práticas abusivas.
O Papel da Comunicação Sugestiva
Um elemento crucial foi a abordagem inadequada feita pelos pais. Perguntas sugestivas, combinadas com um clima de preocupação crescente, criaram o que a psicologia chama de falsas memórias. Nessa dinâmica, crianças pequenas acabam concordando com cenários criados por adultos, muitas vezes misturando fantasia e realidade.
Além disso, no contexto dos anos 1990, havia um medo social crescente relacionado ao abuso sexual infantil, com outros casos semelhantes ganhando destaque na mídia. Esse clima alimentou a disposição dos pais a acreditar no pior, sem investigar adequadamente.
A Reação Inicial
Com base nos relatos dos pais, as denúncias chegaram à polícia. As investigações foram conduzidas de forma precipitada, e, em pouco tempo, os proprietários da escola e outros funcionários foram publicamente acusados. A imprensa, movida pela busca por audiência, divulgou os nomes, fotos e detalhes dos acusados sem verificar os fatos. Manchetes sensacionalistas e reportagens alarmistas levaram a uma condenação midiática instantânea.
O Papel da Mídia
A imprensa teve um papel devastador no caso. Veículos de comunicação, ansiosos por explorar o tema, publicaram informações sem provas, alimentando a indignação popular. O impacto foi imediato:
- A escola foi depredada por populares indignados.
- Os acusados foram perseguidos e ameaçados, obrigando-os a se esconder.
- A reputação dos envolvidos foi destruída, antes mesmo de qualquer conclusão judicial.
A Verdade Vem à Tona
À medida que as investigações avançaram, ficou claro que as acusações eram infundadas. Os exames médicos realizados nas crianças não indicaram sinais de abuso, e os relatos delas foram analisados como fruto de perguntas sugestivas e interpretações equivocadas dos pais.
Ao final, não foi encontrada nenhuma evidência concreta que confirmasse os supostos abusos. O caso foi arquivado, mas os danos já estavam feitos.
As Consequências
O caso teve consequências devastadoras para os acusados:
- Reputações destruídas: Nunca conseguiram recuperar totalmente suas vidas profissionais ou pessoais.
- Impacto psicológico: Muitos enfrentaram traumas profundos, como depressão e ansiedade.
- Prejuízo financeiro: A escola foi fechada, destruindo o principal meio de sustento dos proprietários.
O que Podemos Aprender
Trinta e um anos depois, o caso Escola Base permanece como um alerta para diversas áreas da sociedade:
- A Presunção de Inocência é Fundamental: Nenhuma acusação deve ser tratada como verdade antes da devida apuração.
- Cuidado na Interpretação de Depoimentos Infantis: Crianças são vulneráveis a influências externas, e seus relatos devem ser tratados com técnica e cautela.
- Responsabilidade da Mídia: A imprensa deve agir com ética e rigor, evitando julgamentos midiáticos que prejudiquem a justiça.
- Investigações Profundas e Imparciais: O devido processo legal e investigações técnicas são essenciais para evitar injustiças.
Reflexão Final
O caso da Escola Base não é apenas uma tragédia pessoal para os envolvidos, mas também um símbolo de como a sociedade pode falhar coletivamente ao lidar com situações sensíveis. Ele nos lembra que justiça e verdade só podem ser alcançadas com serenidade, ética e responsabilidade.
Hoje, 31 anos após o ocorrido, o caso ainda ecoa como um alerta para jornalistas, advogados, investigadores e cidadãos. Afinal, a pressa pelo julgamento — seja judicial, midiático ou social — pode destruir vidas de forma irreparável, e a busca pela verdade exige cautela e prudência.
Livros
- Escola Base: Onde e como estão os protagonistas do maior crime da imprensa brasileira
Autor: Emílio Coutinho
Um dos relatos mais detalhados sobre o caso, o livro narra o sofrimento dos envolvidos, os erros das investigações e o papel devastador da mídia.

- Caso Escola Base: Os Abusos da Imprensa
Autor: Alex Ribeiro
Analisa criticamente o papel da imprensa e como a cobertura irresponsável transformou um caso sem provas em um escândalo de repercussão nacional.

- O Filho da Injustiça
Autor: Ricardo Shimada
Filho de Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada (acusados), foi lançado em 2023 e aborda, além das investigações, detalhes da sua vida com os pais antes, durante e após todo o ocorrido.

Documentário
- Escola Base – Um Repórter Enfrenta o Passado (Globoplay, 2022)
Primeiro repórter a noticiar uma acusação de abusos de crianças em idade pré-escolar, Valmir Salaro é o condutor do documentário que revê o caso da Escola Base, ocorrido em março de 1994. Os denunciados eram inocentes e o caso virou escândalo nacional. Vinte e oito anos depois, Salaro encara dolorosos reencontros com os acusados e personagens dessa história.

Se você estiver enfrentando uma situação semelhante ou deseja saber mais sobre o tema, consulte um advogado especializado para entender melhor seus direitos e obrigações.
O Escritório Prudente Advocacia está pronto para te ajudar. Entre em contato conosco pelo telefone (WhatsApp): (44) – 99712-5932 ou pelo E-mail: contato@prudentecriminal.adv.br.
Adquira nosso Livro sobre Crimes Sexuais, clique aqui.

Neemias Moretti Prudente, Advogado Criminalista. Mestre e Especialista em Ciências Criminais. Bacharel em Direito e Licenciado em Filosofia. Escritor, Criminólogo e Professor. Bibliófilo e Cinéfilo.